Esta minha condição de afonia devido aos maravilhosos polens que invadem as minhas vias respiratórias, instalando-se nos brônquios, deixam com que perca a vontade de comunicar. A voz é por excelência a mais fácil forma de comunicar e estando privada dela por razões alérgicas, deixam-me quedada, sem forças, sem vontade de explicar o que quer que seja, até porque os anti-histamínicos "pesam"... Enfim, quando estamos calados, deixamos mais espaço no ar para ouvirmos o que os outros nos dizem. Sim, porque mesmo que tentemos dizer algo, a própria dificuldade com que vamos proferir a palavra faz com que optemos pelas mais explícitas, mais curtas e transparentes pois são menos as oportunidades que vamos investir no discurso. E se mesmo assim, o receptor da mensagem não a entendeu (ainda que sem interferências), não merece o nosso esforço de justificar/explicar absolutamente mais nada. E aí, vimos a essência da pessoa a quem dirigimos as nossas palavras, as quais já por si valem pouco para a pessoa que as ouve e por isso, não vale a pena substituir por outras.
quinta-feira, 5 de maio de 2016
terça-feira, 3 de maio de 2016
Acredito em Deus e acredito que me põe à prova muitas vezes. Ontem foi através de uma senhora com alguns problemas mentais, no estabelecimento onde eu tomava um café e uma empada de galinha (deliciosa !). Veio ter comigo e disse: "não me paga um cafézinho?" ao que respondi que não sabia se seria perigoso pois a senhora poderia ter tensão alta. E ofereci-me para lhe pagar um pãozinho com algo à sua escolha, pensando que a senhora me deixasse e que apenas andasse a pedir por vício, como tantos outros. E ela disse "e se fosse um salgadinho?" Respondi-lhe que as empadas eram ótimas e perguntei se queria uma. Como concordou perguntei à empregada quanto custava uma empada (pois quando pago nem reparo no preço). Acreditam que as moedas que tinha na carteira todas juntas faziam precisamente o valor a pagar pela empada ? Imediatamente fui retirar uma senha de vez e entreguei à senhora com o dinheiro para a empada.
São pequenos sinais como estes que me fazem acreditar Nele e me levam a descentralizar mais as atenções de mim para os outros.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Conto "L & J" - parte 4 (final)
O carro de Jorge foi encontrado durante o período da tarde desse dia, na encosta de uma perigosa estrada a cerca de 30 km da sua residência. O corpo, encontrado umas horas depois, fora cuspido durante o capotamento. Lurdes perdera muito sangue durante a cesariana e entrara em estado febril. Continuava na sala de observação após doze horas sem ver os seus bebés, sem ver ninguém. Os recém nascidos estavam aos cuidados das enfermeiras atentas que rondavam as incubadoras. Melhorou durante a noite e de manhã transferiram-na para o quarto. A meio da manhã, bateram à porta e entrou um rapaz alto, barba aparada, olhar doce, com um à vontade solto mas educado. Sentou-se na cama a olhar para ela. Lurdes sentia como se o conhecesse mas não sabia quem era nem o que dizer, afinal esperava a visita do marido e aparecia-lhe um sedutor a falar com os olhos ?! Era Júlio. Cabia-lhe dar a trágica notícia à cunhada que ainda não conhecera, os pais estavam destroçados e o irmão telefonou-lhe para que viesse o mais rápido possível. E ali estava ele perante uma mulher serena, que acabara de ser mãe outra vez, cujos olhos o interrogavam sobre quem seria. Apresentou-se e não tendo como evitar ou disfarçar, deu-lhe a notícia nua e crua. Lurdes ficou branca mas não chorou. Olhou para a luz que vinha da janela com o olhar perdido e apenas disse: “já sentira que algo terrível tinha acontecido, obrigada por teres vindo. Se foi a vontade de Deus… temos de aceitar e continuar. Já viste os bebés ?” Júlio disse que não. Não podia imaginar que Lurdes era assim tão corajosa. Ou será que de algum modo já esperaria um desfecho como este ? Ou será que Jorge tinha aberto totalmente o seu coração à sua mulher e contado aquilo que Júlio nunca lhe perdoou ? Não era pessoa de ficar na dúvida e apesar de não conhecer a cunhada teve de abrir o jogo com ela e perguntar-lhe o porquê daquela reação tão pouco reativa, tão pouco emotiva. Lurdes disse que pressentira que a sua vida iria mudar radicalmente. A fraca relação com o marido, as suas ausências e falta de apoio, não poderia continuar uma vida de mentira. E mais. Na galeria tinha feito amizade com Marta, uma mulher pouco mais velha que ela com um passado difícil, mãe solteira de um lindo rapaz de 10 anos chamado... Jorge. Sim, Lurdes sabia desse filho do marido e nem Marta sonhava que afinal Lurdes era casada com o pai do seu filho. Esperava que o marido se abrisse consigo e lhe dissesse porque não assumia a criança, esperava que lhe dissesse onde passava as noites, ou que justificasse as ausências inesperadas com as crises de asma do filho. Júlio ficou com os olhos cheios de lágrimas e perguntou-lhe se ela sabia porque estava ele longe da família. Lurdes abanou a cabeça negativamente. Então o cunhado contou-lhe que Marta era a mulher da sua vida, conhecera-a acidentalmente numa saída do Metro no aeroporto e desde aí tinha percebido que era ela a quem desejava. No entanto, numa festa de fim de semana para a qual convidou Jorge porque este pouco saía na altura, Júlio foi chamado de urgência ao hospital devido a um grave acidente ocorrido na auto-estrada. Marta ficou aos cuidados de Jorge e entre copos e danças, acabaram por se envolver e sairam os dois quentes e loucos, prestes a explodir de excitação sexual. Não correu como seria esperado pois Jorge acabou por forçar a situação, deixando Marta com algumas marcas de agressão. No dia seguinte, Júlio teve vontade de matar o irmão quando este lhe contou o descontrole que tinha dito. Procurou Marta por todo o lado e nunca conseguiu em lugar nenhum qualquer notícia dela. Não conseguia encarar o irmão, a família, e decidira ir para longe. Agora sabia de Marta. A sua Marta que não soube defender do próprio irmão...
Com a herança que recebeu, Lurdes decidiu sair da quinta e mudou-se para uma casa térrea, modesta em pleno campo. Consigo levou os filhos, naturalmente, e a babysitter que conhecia os seus filhos tão bem como ela. Tinha a serenidade que precisava para pintar e a galeria começava a ter o sucesso com que sonhara. No momento não precisava de mais nada.
Nunca contou a Marta quem era verdadeiramente. E Júlio tinha embarcado para África após o funeral. Não podia apagar o passado porque senão nem teria os filhos que tanto amava. Mas achou que seria melhor guardar esse pedaço da história na gaveta, pois não beneficiaria ninguém. Só lhe restava desejar que a filha não se apaixonasse no futuro por um Jorge ...
FIM

Com a herança que recebeu, Lurdes decidiu sair da quinta e mudou-se para uma casa térrea, modesta em pleno campo. Consigo levou os filhos, naturalmente, e a babysitter que conhecia os seus filhos tão bem como ela. Tinha a serenidade que precisava para pintar e a galeria começava a ter o sucesso com que sonhara. No momento não precisava de mais nada.
Nunca contou a Marta quem era verdadeiramente. E Júlio tinha embarcado para África após o funeral. Não podia apagar o passado porque senão nem teria os filhos que tanto amava. Mas achou que seria melhor guardar esse pedaço da história na gaveta, pois não beneficiaria ninguém. Só lhe restava desejar que a filha não se apaixonasse no futuro por um Jorge ...
FIM

sexta-feira, 29 de abril de 2016
Falar sozinho...
De manhã quando me sentei para beber um café na esplanada, ligeiramente à esquerda em frente estava um senhor sozinho também sentado à mesa, de costas para mim. O tabuleiro já estava vazio e ele falava num tom baixo enquanto gesticulava, como quem explica algo a quem está em frente a si. E fazia pequenas pausas e retomava a conversa. Não consegui perceber uma única palavra. E à frente dele só havia um vidro transparente que mal o refletia. O senhor estava impecavelmente vestido, de fato cinzento, clássico, camisa branca, óculos escuros tipo Ray-ban, chaves de casa e carro, uma caneta tipo Cross e sem qualquer aliança nos dedos. Aparentava mais de 70 anos. Nunca alterou o tom de voz.
Fiquei ali a observá-lo, com vontade de perguntar à empregada se era um cliente habitual, se falaria sózinho ou para alguém imaginário. Achei tão triste. Primeiro porque não fiz absolutamente nada, a não ser segui-lo quando se levantou. E depois porque a solidão é sempre tramada e pode conduzir a depressão e até mesmo esquizofrenia. Será que alguém da família deste senhor já se apercebeu do que se passa ? É que enquanto o segui, ele não falou sozinho, não fez nada de estranho, simplesmente caminhou até ao outro lado do parque e entrou na sua viatura. Não o vi ir embora. Pensei por momentos que era eu que estava a ser paranóica.
Eu também falo sozinha, mas não é assim. Falo comigo, repreendo-me por vezes, ou se estou meio desorientada digo baixo o que estou a fazer para me ajudar a concentrar, ou se estou a trabalhar com números por vezes ouvir-me é como confirmar que estou a fazer bem. Se tiver de apresentar algo também treino o discurso antes. Não falo sozinha na rua. Mas também não sou uma pessoa só. Sou uma pessoa que escolhe ficar só de vez em quando por um bocadinho, para ter um tempo próprio, tranquilo. É preciso estar atento. Aquilo que se escolhe pode ter muitas consequências. E o que se escolhe tem sempre um estímulo anterior que leva a essa escolha. Por vezes confundem-se as escolhas com o que certa pessoa vê como um único caminho. Tem de enquadrar-se no quadro social e psicológico do indivíduo porque as respostas estão todas lá. O ser humano precisa de comunicar mas comunicar só se verifica entre dois pontos em que um emite e o outro recebe o qual por sua vez envia nova mensagem ao primeiro, estabelecendo uma troca. Parece-me que quando as pessoas falam desenfreadamente como o senhor que observei, é porque já estão a dar resposta ao seu próprio pensamento. Quero acreditar que ele não via alguém à sua frente...

domingo, 24 de abril de 2016
Como nos despedimos de quem não queremos que parta ?
Será que um beijo, um encostar de pele, consegue transmitir tudo o que sentimos, tudo o que não dissemos ?
E se não soubermos o que dizer, bastará dizer o quanto amamos ?
A nossa mão será um bom condutor de sentimentos ?
Como se evita a lágrima incontrolável ? E as memórias todas que se empurram para chegar cada uma à projeção de imagem na consciência ? Cada uma com cheiro e sabor únicos no tempo...
E tudo aquilo que não ouvi, que não me explicou, conseguirei um dia entender ?
Sinto-me tão egoísta ao querer-lhe tanto, ao achar que só o meu coração guardará para sempre o seu amor ! Mas sei que cada um que a conheceu foi tocado por uma luz maravilhosa.
É essa luz que a chama agora mas não tenho coragem para dizer, "vai"... e balança nessa linha entre aqui e acolá, que parece tão longe mas está mesmo ali ao lado.

Será que um beijo, um encostar de pele, consegue transmitir tudo o que sentimos, tudo o que não dissemos ?
E se não soubermos o que dizer, bastará dizer o quanto amamos ?
A nossa mão será um bom condutor de sentimentos ?
Como se evita a lágrima incontrolável ? E as memórias todas que se empurram para chegar cada uma à projeção de imagem na consciência ? Cada uma com cheiro e sabor únicos no tempo...
E tudo aquilo que não ouvi, que não me explicou, conseguirei um dia entender ?
Sinto-me tão egoísta ao querer-lhe tanto, ao achar que só o meu coração guardará para sempre o seu amor ! Mas sei que cada um que a conheceu foi tocado por uma luz maravilhosa.
É essa luz que a chama agora mas não tenho coragem para dizer, "vai"... e balança nessa linha entre aqui e acolá, que parece tão longe mas está mesmo ali ao lado.
terça-feira, 19 de abril de 2016
... se ela te achar vazio demais, não vai rolar de novo.
Espero que haja homens a terem oportunidade de conhecer mulheres assim. Mulheres com carácter, com ideias bem definidas, que vivem a sua vida e os seus sentimentos de forma única e verdadeira. E quem for escolhido... é definitivamente especial no momento !
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Conto "L & J" parte 3
Passaram meses. Passaram cerca de dois anos. Lurdes deixara de ir contar histórias aos infantários da segurança social, ação de voluntariado exercida até ao casamento. A vida mudara radicalmente e embora soubesse que muitas sonhariam com uma vida como a dela, não era aquilo que tinha desejado para si própria. A única coisa que mantinha era isolar-se diariamente umas horas no atelier que tinha conseguido levar para a quinta dos sogros. Aí, a sua alma soltava-se e dava aso a quadros maravilhosos em várias técnicas e com diversos materiais. O sossego da natureza que lhe entrava pelas janelas, era como se a transportasse para fora de si mesma até se sentir perfeitamente leve e integrada nessa atmosfera idílica. Cada vez mais procurava esse seu canto. Jorge queixava-se constantemente de cansaço, chegava tarde e para além disso pouco falava com quem quer que fosse dentro de casa. Não lhe permitia que voltasse a dar aulas e agora que estava grávida pela segunda vez e já sabia que seriam gémeos, muito menos essa hipótese seria viável. A relação estava inevitavelmente tremida. Socialmente funcionava. Eram adultos, educados, bem formados. Jorge parecia ter orgulho na mulher que apresentava em jantares e Lurdes tinha tudo quanto podia desejar ao nível material. Os sogros eram atenciosos e já tinham detetado algo fora do normal. Teresa, a cunhada, dizia-lhe que Jorge admirava-a muito pela sua força interior, pela tranquilidade que emanava, pela dedicação que tinha pela filha de ambos, mas Lurdes não era feliz. Gostava de saber porque o seu marido desaparecia por vezes sem dar explicações, porque passou a beber um pouco mais que o habitual, porque chegava de madrugada uma vez por outra. De facto não era mal tratada mas havia situações inadmissíveis. Como aquela em que alugara a galeria para a primeira exposição das suas obras e Jorge chegou quando já estavam a fechar as portas. Ou quando a levou para ter a filha na clínica e inventou uma emergência para ir para a fábrica. Ela soube que ele nem sequer apareceu na fábrica nesse dia. Pois. Lurdes tentava dialogar com o marido mas ele alegava que estava tudo bem, pedia desculpa que estava cansado e adormecia. Será que só ela via que estavam condenados a uma separação ? Numa noite, Lurdes não deixou passar em branco o facto de Jorge chegar quase à duas da manhã. Houve uma feia discussão em que ambos perderam o controle e o tom das suas vozes acabou por acordar os familiares. Jorge voltou a sair e bateu com a porta alta da entrada depois de descer as escadas a correr. Lurdes enervada com toda a situação, começa com contrações fortes e rapidamente é levada para a clínica, pois embora faltasse pouco mais de um mês para o parto é natural que gémeos nasçam antes do tempo. E assim foi. Os dois meninos nasceram saudáveis com pouco mais de dois quilos cada. E Jorge, onde andaria ? às nove horas da manhã ainda ninguém o conseguira contactar. Temia-se o pior…
(continua...)
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