segunda-feira, 11 de abril de 2016

Protegida no ninho


Perguntam-me por onde ando, que tenho feito porque não me veem. Pensam em convidar-me para sair, ver algo, dar dois dedos de conversa e depois desistem, pois pensam que como não apareço não quero sair. Agradeço na mesma e digo "fizeste bem". E foi o mais acertado. Vidas desencontradas tão diferentes com apenas alguns pontos onde se tocam e se encontram, e são felizes momentaneamente. Poucas são as pessoas merecedoras de entrar no meu mundo demasiado precioso para partilhar com qualquer um. As minhas prioridades são muuuito prioritárias ! E quantas vezes já ouvi contrariarem-me e perguntarem-me "e tu ?...". Cada coisa a seu tempo, escalonada para a sua oportunidade. E a minha oportunidade agora é aproveitar tudo (e todos) o que tenho e talvez devesse ser assim sempre porque não sei o que se passará no minuto seguinte.
A nossa passagem pelo tempo muda-nos a perspectiva do que se passa, do que passou e do que se irá passar. É engraçado reconhecer aos poucos a maturidade que se vai adquirindo, através da observação do comportamento dos outros. Observações feitas por nós, conselhos, advertências, algumas previsões até... ver tudo isso a acontecer. Analisar o passado e perceber o que se quer para o futuro, e sobretudo o que NÃO se quer. Saber calar, saber guardar, não falar em vão para não gastar palavras em ouvidos surdos cujas cabeças têm falta de uso correto.
Gosto de estar no meu ninho, resgardada no meu castelo, sair quando há sol para aquecer a pele e o coração, sair quando chove para que as energias menos boas sejam carregadas de pureza. Gosto de viver sem chatices. E estou sempre ligada a quem gosto e que gosta de mim. Isso basta-me.




quarta-feira, 6 de abril de 2016

De negro me visto
como quem navega pelas águas impuras das trevas buscando uma nesga de luz no silêncio
Vou de preto sem luto
porque a luta todos os dias difere
Contorno as sombras de preto vestido
não para passar sem ser vista
- o poder negro protege
- o poder negro impõe-se
não deixa que saia e não permite que entre
Vestida de preto não me comprometo
cabeça erguida
óculos pretos colocados
Senhora que é árvore de raízes fortes
não há tempestade que me arranque à terra !




terça-feira, 5 de abril de 2016

Hoje amanheci com (mais) medo. Medo de te perder. Para sempre. Desde que o ano civil começou que sinto a presença da morte. Vai, vem, espreita, estica a mão... indecisa sobre o que (ou quem) escolher. Saio de mim e tento ter a sua visão e a escolha evidente seria a mais fácil, fortalecida pela vulnerabilidade resultante de anos de sofrimento. Mas... e se não for ? será que é a morte que escolhe ou é a vida que se lhe entrega ? Já te tocou 3 vezes de forma mais vincada, mais atevida por encurtar o período de tempo em que ocorre. Dizem que "à terceira é de vez" -  não  foi no teu caso. Continuas a tratá-la por tu, a dar-lhe ordens de retiro porque não é chegada a hora. E devagarinho, vais saindo desta dimensão, aceitando lentamente a chamada por entre lágrimas de saudade do que já foste, antevendo em nós o que seremos de ti e em ti.
Não queria que fosses,
Nunca.



sexta-feira, 1 de abril de 2016


"Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às plantas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados ?
...
O livre passarinho, que voava,
Cantando para o céu deixando a terra,
Da terra para o céu me encaminhava."

por Frei Agostinho da Cruz



APONTAMENTO

É tão bom
Sentir a ventania lá por fora
e a calma cá por dentro!...

Ou o contrário disto:
vento e raiva cá por dentro e, lá por fora, uma calma
que mais parece um gesto ou um olhar
de Cristo...

Ou, então,
chegar a esta confusão
de não saber se o vento é lá por fora
se é cá por dentro...

Sebastião da Gama, Serra- Mãe




quarta-feira, 30 de março de 2016

"As pessoas têm estranhas formas de se encontrarem."


Resultado de imagem para distanciaVerdade. Ouvi esta frase hoje a propósito de um afastamento espacial entre uma mãe e uma filha, e isso aproximou-as espiritualmente.
Fez-me pensar e ir buscar coisas esquecidas há muito. Procurei memórias e conselhos, palavras, sorrisos, lágrimas amarguradas de outros tempos... recordei um colo doce onde sempre me senti protegida.
As pessoas observam-se mais umas às outras quando se distanciam. A visão abarca mais. A perspectiva é outra. E se o alcance da nossa visão melhora, a nossa compreensão também aumenta e aceitamos melhor o "outro". É preciso que nos afastemos de vez em quando para nos aproximarmos mais.



terça-feira, 29 de março de 2016

Estive ausente.
Não como muitas das vezes que estou ausente de escrita mas presente de espírito. Desta vez estive fora do meu ambiente natural. Fugi por uns dias e tudo pareceu mais leve, mais fluido nos sentimentos bons. Quando vou para longe, todos evitam dar más notícias, ninguém se queixa de dores por telefone, quem nos serve por profissão é extremamente simpático, há sorrisos gratuitos que se pagam à posteriori. E a gente alivia. E mergulha noutras águas, e corre, e ri, e joga noutras mesas e noutros tabuleiros, arrisca comer outras coisas... por outras palavras, solta-se e descontrai. Depois volta-se e retoma-se a vida rotineira, como quem apanha o comboio sempre à mesma hora conhecendo os indíviduos companheiros de viagem e as suas maleitas. E subitamente aproximamos-nos de quem julgamos conhecer bem e descobrimos fraquezas, quebras, falhas e vemos que temos de estar mais presentes, redefinir os tempos, os dias, as atenções, o amor. Aparece então a impotência, a incapacidade de corresponder ao que julgamos prioritário, o receio de não conseguir, o inevitável medo de desapontar e não satisfazer expectativas.
Posso ir de férias outra vez ??!...








quinta-feira, 17 de março de 2016

És luz
És um raio de sol entre as nuvens densas que ameaçam inundar o meu regaço
Tua voz segura e sonante trava medos abrindo portas onde não as há
Recordo o teu abraço firme e desejo descansar o pensamento no teu peito
A embriaguês emocional tolda-me os sentidos
E prometes colher-me estrelas numa noite de luar...

A escuridão minha conselheira pede-me que espere a manhã
A lucidez então retorna